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Um espanhol em São Paulo

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Não sei por que gosto de São Paulo.

Segundo Villanueva F. / España aquí

Como sempre, de manhã e através do terraço do meu apartamento, só consigo enxergar prédios cinzas e ruas abarrotadas de carros. A música de fundo é sempre a mesma. Motores em ebulição, mais perceptível quando abre o farol e cadente quando a frota acelera com pressa e vai desaparecendo pela Henrique Schaumann fugindo em direção à Sumaré. Os dias em que o céu está deprimido e as nuvens proporcionam um certo ar londrino a São Paulo, as acelerações ecoam como carros de combate e as motos fisgam a atmosfera industrial da cidade abrindo uma fenda no meio de sua barriga. Dói. Lá embaixo, no espaço em frente a uma casa para alugar que nunca aluga, um mendigo se estica todo e simula estar tomando um banho. Sua pele é da mesma cor que a sua roupa, e sua roupa se mistura com a sua pele. O homem não deve de ser mais um homem, e provavelmente vai pela cidade confundido com outra coisa, com certeza, não com um homem, não. Aquele homem cuja pele se mistura com a sua roupa gosta de dialogar com o trânsito no cruzamento da Avenida Brasil. Quando o farol abre, o bando de carros flui como se uma garrafa estivesse se esvaziando, primeiro vagarosamente, depois de maneira violenta e finalmente, os últimos da fila, preguiçosamente, como as duas últimas gotinhas da garrafa. A cidade funciona. O homem cuja pele é da cor da roupa sente-se satisfeito por ter ajudado a esvaziar as garrafas em São Paulo. É sua razão de viver. Pela noite voltará à frente da casa para alugar que nunca aluga, e depois de tomar um banho quente e jantar algo bem ligeiro, conciliará o sono satisfeito, sabendo que cumpriu sua missão. Até que amanheça ao dia seguinte. Eu me pergunto que me atrai de São Paulo. Dois periquitos barulhentos sobrevoam a Grande Avenida e se perdem na copa de uma árvore. Posteriormente aparece um urubu. Suas asas enchem de ar e gira a cabeça olhando a Avenida cheia de veículos em marcha, antes de perder-se entre os prédios.

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